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RCP em crianças e bebês: como fazer a reanimação cardiopulmonar passo a passo

Quando uma criança ou um bebê fica inconsciente e deixa de respirar normalmente, cada minuto importa. A reanimação cardiopulmonar, conhecida pela sigla RCP, pode manter a circulação de sangue e oxigênio para órgãos vitais enquanto o atendimento especializado não chega.

Embora os princípios da RCP sejam semelhantes aos utilizados em adultos, existem diferenças importantes quando a vítima é uma criança ou um bebê. A força aplicada nas compressões, a profundidade, a posição das mãos e até a importância das ventilações precisam ser adaptadas ao tamanho e às características do paciente.

Além disso, nas emergências pediátricas, problemas respiratórios são uma causa importante de parada cardiorrespiratória. Por isso, compressões torácicas associadas às ventilações são especialmente importantes em crianças e bebês. As diretrizes internacionais atuais recomendam que, sempre que possível, a RCP pediátrica seja realizada com compressões e ventilações.

Neste guia, você vai entender como reconhecer uma possível parada cardiorrespiratória e como realizar RCP em crianças e bebês até a chegada do serviço de emergência.

Sumário:

Importante: este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui treinamento presencial de primeiros socorros. Em uma emergência real, acione imediatamente o serviço de emergência e siga as orientações fornecidas pelo atendente.

O que é RCP?

RCP significa reanimação cardiopulmonar. É um conjunto de manobras realizadas quando uma pessoa apresenta uma parada cardiorrespiratória.

Durante a parada, o coração deixa de manter uma circulação sanguínea eficiente e a vítima deixa de respirar normalmente. Sem circulação, o cérebro e outros órgãos passam rapidamente a sofrer com a falta de oxigênio.

As compressões torácicas tentam substituir temporariamente parte da função de bombeamento do coração, enquanto as ventilações ajudam a fornecer oxigênio.

RCP em crianças é diferente da RCP em adultos?

Sim.

O princípio continua sendo comprimir o tórax de forma rápida e adequada, permitir que ele retorne à posição normal entre as compressões e realizar ventilações quando possível.

Porém, crianças e bebês possuem corpos menores e apresentam características fisiológicas diferentes dos adultos.

Uma diferença particularmente importante está na origem da parada cardiorrespiratória. Em adultos, muitas PCR súbitas estão relacionadas inicialmente a problemas cardíacos. Em crianças e bebês, problemas respiratórios e situações que provocam falta de oxigênio têm papel proporcionalmente maior.

Isso ajuda a explicar por que as ventilações recebem tanta importância durante a RCP pediátrica. As Diretrizes AHA/AAP 2025 recomendam RCP convencional — compressões associadas a ventilações — em crianças e bebês.

Quem é considerado bebê e quem é considerado criança?

Para fins de suporte básico de vida, é útil fazer uma divisão simples.

Neste artigo, chamaremos de bebê ou lactente a vítima com menos de aproximadamente 1 ano de idade. A partir de cerca de 1 ano até o início da puberdade, utilizaremos o termo criança.

Recém-nascidos imediatamente após o nascimento possuem protocolos específicos de reanimação neonatal e, por isso, não fazem parte deste guia.

A partir da puberdade, as técnicas utilizadas se aproximam das recomendações de RCP para adultos.

Como reconhecer uma parada cardiorrespiratória em uma criança ou bebê?

Para uma pessoa sem formação em saúde, a identificação deve ser simples e rápida.

Suspeite de parada cardiorrespiratória quando a criança ou o bebê:

não responde e não respira normalmente.

Uma vítima pode apresentar movimentos respiratórios estranhos, lentos ou irregulares conhecidos como gasping ou respiração agônica. Esses movimentos não devem ser confundidos com uma respiração normal.

As recomendações AHA/AAP 2025 são claras: o socorrista leigo não deve tentar verificar o pulso antes de começar a RCP, pois essa avaliação pode ser difícil e atrasar o início das compressões.

Portanto, encontrou uma criança ou bebê que não responde e não respira normalmente? Trate a situação como uma emergência.

O que fazer primeiro?

Antes de tocar na vítima, verifique se o ambiente é seguro. Você não deve se transformar em uma segunda vítima.

Aproxime-se e tente obter uma resposta. Em uma criança, chame-a e toque suavemente em seus ombros. Em um bebê, chame-o e utilize estímulos suaves, observando se ocorre alguma reação.

Se não houver resposta, peça ajuda imediatamente.

No Brasil, o SAMU pode ser acionado pelo telefone 192, gratuitamente e 24 horas por dia. O serviço também fornece orientações durante a ligação. O número 193 permite o acionamento do Corpo de Bombeiros.

Se houver outra pessoa no local, peça que ela faça a ligação e procure um DEA — Desfibrilador Externo Automático, enquanto você inicia a RCP.

Se estiver sozinho e tiver um telefone celular, coloque a chamada no viva-voz sempre que possível para receber orientações sem interromper o atendimento.

Como fazer RCP em uma criança

Posicione a criança deitada de costas sobre uma superfície firme e plana.

Ajoelhe-se ao lado do tórax.

Localize o centro do peito, sobre o esterno. Dependendo do tamanho da criança e do socorrista, as compressões podem ser realizadas com a base de uma mão ou com as duas mãos, de maneira semelhante à utilizada em adultos.

Mantenha o braço firme e comprima verticalmente.

A frequência recomendada é de 100 a 120 compressões por minuto.

A profundidade deve corresponder a aproximadamente um terço da espessura do tórax, o que equivale a cerca de 5 centímetros em uma criança.

Depois de cada compressão, permita que o tórax retorne completamente à posição original. Evite permanecer apoiado sobre o peito da criança.

Para um socorrista leigo, uma sequência simples é:

30 compressões → 2 ventilações → 30 compressões → 2 ventilações.

Continue repetindo os ciclos.

Posição correta das mãos para realizar RCP em uma criança

Como fazer as ventilações em uma criança

Após as 30 compressões, abra a via aérea inclinando suavemente a cabeça para trás e elevando o queixo, desde que não exista uma situação de trauma que exija cuidados específicos.

Feche o nariz da criança.

Faça uma vedação com sua boca sobre a boca da vítima e realize uma ventilação durante aproximadamente 1 segundo, apenas até observar o tórax começar a subir.

Faça uma segunda ventilação da mesma maneira.

Evite soprar com força excessiva. O objetivo não é encher os pulmões ao máximo, mas provocar uma elevação visível do tórax.

Depois das duas ventilações, retorne imediatamente às compressões.

As interrupções das compressões devem ser tão curtas quanto possível. As recomendações atuais orientam que as pausas sejam mantidas abaixo de aproximadamente 10 segundos.

Como fazer RCP em um bebê

A lógica é semelhante, mas a técnica precisa ser adaptada ao tamanho do tórax.

Coloque o bebê de costas sobre uma superfície firme e plana.

Posicione-se próximo ao tórax.

As Diretrizes AHA/AAP 2025 recomendam que as compressões em lactentes sejam realizadas utilizando a base de uma mão ou a técnica dos dois polegares com as mãos envolvendo o tórax.

A profundidade continua sendo aproximadamente um terço da espessura do tórax, correspondendo a cerca de 4 centímetros em um bebê.

A frequência permanece a mesma:

100 a 120 compressões por minuto.

Depois das 30 compressões, faça duas ventilações e reinicie imediatamente as compressões.

Técnicas de compressão torácica durante RCP em um bebê

Como ventilar um bebê durante a RCP?

A ventilação de um bebê exige ainda mais delicadeza.

Depois das compressões, abra suavemente a via aérea. Como a cabeça do bebê é proporcionalmente maior e suas vias aéreas são menores, uma hiperextensão exagerada pode dificultar a passagem do ar.

Faça uma vedação colocando sua boca sobre a boca e o nariz do bebê ao mesmo tempo, quando isso for possível.

Sopre suavemente durante cerca de 1 segundo, observando o tórax.

Apenas uma pequena quantidade de ar é necessária.

Se o tórax subir, a ventilação foi suficiente.

Realize a segunda ventilação e retorne imediatamente às compressões.

E se eu não souber ou não conseguir fazer respiração boca a boca?

Em crianças e bebês, a RCP com compressões e ventilações é preferível, principalmente porque muitas paradas pediátricas estão associadas à falta de oxigênio.

Porém, uma pessoa que não saiba, não consiga ou não esteja disposta a realizar as ventilações não deve simplesmente deixar de ajudar.

Nessa situação, é razoável realizar RCP somente com compressões até que outra pessoa treinada ou o serviço de emergência possa assumir o atendimento. RCP apenas com compressões é melhor do que nenhuma RCP.

Em crianças e bebês, tente realizar compressões e ventilações. Se não conseguir ventilar, faça pelo menos as compressões.

O DEA pode ser utilizado em crianças e bebês?

Sim.

O Desfibrilador Externo Automático (DEA) pode ser utilizado durante uma parada cardiorrespiratória pediátrica e deve ser conectado assim que estiver disponível.

As recomendações de 2025 reforçam a utilização precoce do DEA também em crianças e bebês.

Para crianças menores, utilize pás pediátricas e um sistema de redução de energia quando estiverem disponíveis.

Se não houver um DEA equipado com atenuador pediátrico, a ausência desse recurso não deve impedir necessariamente a utilização do equipamento. As diretrizes admitem o uso de um DEA convencional quando não houver alternativa pediátrica disponível.

Ligue o aparelho e siga suas instruções.

O DEA informará quando ninguém deve tocar na vítima para que o ritmo cardíaco seja analisado e indicará se é necessário aplicar um choque.

Depois da análise ou do choque, reinicie imediatamente a RCP.

Em crianças ou bebês muito pequenos, as pás não podem ficar encostadas uma na outra. Se não houver espaço suficiente para colocá-las lado a lado no tórax, uma delas pode precisar ser posicionada na frente do tórax e a outra nas costas, conforme orientação do equipamento.

Posicionamento das pás do DEA em crianças e bebês

Por que as ventilações são tão importantes em crianças?

Essa é uma das principais diferenças conceituais entre a RCP pediátrica e a RCP de muitos adultos.

Em adultos, uma parada cardíaca pode ocorrer de forma extremamente súbita devido a uma alteração elétrica do coração.

Em crianças, situações que progressivamente reduzem a quantidade de oxigênio no organismo são proporcionalmente mais frequentes antes da parada.

Problemas respiratórios graves, afogamentos, engasgos e outras emergências podem evoluir dessa maneira.

Por isso, as diretrizes pediátricas enfatizam a importância de restaurar tanto a circulação quanto a oxigenação.

Essa também é a razão pela qual aprender RCP pediátrica não significa simplesmente fazer uma versão mais fraca da RCP de adultos.

A técnica precisa ser realmente adaptada.

Qual é o ritmo correto das compressões?

Independentemente de ser uma criança ou um bebê, procure manter entre 100 e 120 compressões por minuto.

Mas velocidade sozinha não é suficiente.

Uma RCP de qualidade também exige compressões com profundidade adequada, retorno completo do tórax, interrupções mínimas e ventilação eficiente.

Comprimir muito superficialmente pode gerar circulação insuficiente. Comprimir muito lentamente também reduz a eficácia das manobras.

Depois de cada compressão, retire a pressão sobre o tórax sem perder o posicionamento das mãos.

O peito precisa ter oportunidade de retornar completamente antes da próxima compressão.

Resumo rápido: criança x bebê

CaracterísticaCriançaBebê
Faixa aproximada1 ano até puberdadeMenos de 1 ano
Frequência100–120/min100–120/min
ProfundidadeCerca de 5 cm ou 1/3 do tóraxCerca de 4 cm ou 1/3 do tórax
CompressãoUma ou duas mãosBase de uma mão ou dois polegares envolvendo o tórax
Relação para socorrista único30:230:2
VentilaçãoBoca a bocaBoca sobre boca e nariz
DEASimSim

Esses parâmetros acompanham as recomendações atuais de suporte básico de vida pediátrico.

Erros que devem ser evitados durante a RCP pediátrica

Os principais erros são atrasar o início das compressões tentando procurar pulso, fazer compressões muito rasas, interromper repetidamente a RCP, soprar ar em excesso durante as ventilações, demorar para utilizar um DEA disponível e utilizar técnicas antigas de compressão em lactentes.

Outro erro é desistir de ajudar por medo de executar a técnica de maneira imperfeita.

Quando uma criança ou bebê está em parada cardiorrespiratória, não realizar nenhuma manobra é muito mais perigoso do que iniciar prontamente a RCP seguindo as orientações do serviço de emergência.

Até quando continuar a RCP?

Continue realizando os ciclos de compressões e ventilações enquanto a vítima permanecer irresponsiva e sem respirar normalmente.

A RCP poderá ser interrompida quando a criança ou bebê apresentar sinais evidentes de vida e voltar a respirar normalmente, quando uma equipe de emergência assumir o atendimento, quando o local se tornar inseguro ou quando você estiver fisicamente impossibilitado de continuar.

Se a vítima recuperar a respiração, continue observando-a atentamente até a chegada do socorro.

Aprender RCP antes da emergência faz diferença

Ler sobre RCP é importante, mas treinamento prático permite compreender melhor a posição das mãos, a profundidade correta das compressões, a velocidade e a realização das ventilações.

Pais, responsáveis, professores, profissionais de escolas, cuidadores e pessoas que convivem frequentemente com crianças podem se beneficiar especialmente desse treinamento.

Durante uma parada cardiorrespiratória, não existe tempo para começar a aprender o procedimento.

O objetivo do treinamento é justamente transformar conhecimento em uma resposta rápida quando ela for necessária.

Conclusão

Encontrar uma criança ou bebê inconsciente e sem respirar normalmente é uma situação assustadora, mas uma pessoa presente no local pode fazer diferença enquanto o atendimento especializado está a caminho.

Reconheça rapidamente a emergência, peça ajuda, acione o serviço de emergência e comece a RCP.

Em crianças e bebês, mantenha compressões entre 100 e 120 por minuto, comprima aproximadamente um terço da profundidade do tórax, realize 30 compressões seguidas de duas ventilações quando estiver sozinho e utilize um DEA assim que estiver disponível.

Na criança, utilize uma ou duas mãos conforme seu tamanho. No bebê, as recomendações atuais orientam a utilização da base de uma mão ou da técnica dos dois polegares envolvendo o tórax, e não mais a antiga técnica de dois dedos.

E lembre-se: em crianças e bebês, as ventilações são particularmente importantes. Se souber realizá-las, combine-as às compressões. Se não conseguir, faça pelo menos compressões até que outra pessoa ou a equipe de emergência possa assumir.

Referências

  1. AMERICAN HEART ASSOCIATION; AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. Part 6: Pediatric Basic Life Support: 2025 American Heart Association and American Academy of Pediatrics Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. Circulation, v. 152, supl. 2, p. S424–S447, 2025. DOI: 10.1161/CIR.0000000000001370.
  2. AMERICAN HEART ASSOCIATION. 2025 American Heart Association Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. 2025.
  3. AMERICAN HEART ASSOCIATION. Top Things to Know: 2025 AHA Guidelines for CPR and ECC. Atualizado em 22 out. 2025. O documento destaca, entre outras mudanças, a retirada da técnica de dois dedos para compressões torácicas em lactentes.
  4. INTERNATIONAL LIAISON COMMITTEE ON RESUSCITATION – ILCOR. Pediatric Life Support: 2025 International Consensus on Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care Science With Treatment Recommendations. 2025.
  5. BRASIL. Ministério da Saúde. Serviço de Atendimento Móvel de Urgência – SAMU 192. Ministério da Saúde. Fonte institucional para orientações sobre acionamento do serviço de emergência no Brasil.

 

Importante: Este conteúdo possui finalidade educativa e não substitui avaliação ou atendimento profissional. Em uma emergência, acione o serviço de emergência adequado e siga as orientações fornecidas pelo atendente.

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