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Hemorragia: como reconhecer e o que fazer para controlar o sangramento

Um corte profundo, um acidente com ferramentas ou uma colisão podem provocar uma perda de sangue que ameaça a vida. Nessas situações, reconhecer uma hemorragia grave e começar os primeiros cuidados rapidamente faz diferença enquanto o atendimento especializado está a caminho.

Você não precisa descobrir qual vaso foi atingido nem calcular quanto sangue a pessoa perdeu para ajudar. O mais importante é perceber que o sangramento é intenso, pedir socorro e agir para reduzi-lo, sem se colocar em perigo.

Este guia explica os sinais de alerta, como fazer pressão direta, quando o torniquete pode ser necessário e quais erros devem ser evitados. O foco é o atendimento inicial de ferimentos com sangramento externo, com orientações adicionais para suspeita de hemorragia interna.

Se a emergência estiver acontecendo agora: verifique se o local é seguro, peça ajuda e acione o SAMU pelo 192. Em situações que exigem resgate, como pessoas presas em ferragens, acione os Bombeiros pelo 193. Em um ferimento externo com sangramento intenso, faça pressão firme e contínua sobre a origem do sangramento, usando gaze ou tecido limpo. Não pressione diretamente objetos encravados, olhos ou órgãos expostos.

Sumário:

O que é hemorragia grave?

Hemorragia é a saída de sangue dos vasos sanguíneos. Ela pode acontecer para fora do corpo, por um ferimento, ou dentro dele, com acúmulo de sangue nos tecidos e em cavidades internas.

A gravidade depende da quantidade perdida, da velocidade do sangramento, da região atingida e das condições da pessoa. Uma perda rápida pode comprometer a circulação antes que todos os sinais de piora fiquem evidentes.

O sangue transporta oxigênio para os órgãos. Quando uma hemorragia reduz muito o volume circulante, o cérebro, o coração e outros órgãos deixam de receber o que precisam. Essa condição pode evoluir para choque hemorrágico, uma emergência que exige controle do sangramento e tratamento especializado.

Pequenos cortes costumam produzir sangramento limitado. Já uma lesão em um vaso importante pode provocar perda intensa, mesmo quando a abertura na pele não parece muito grande. Por isso, avaliar apenas o tamanho do corte pode levar a uma falsa sensação de segurança.

Hemorragia externa e interna: qual é a diferença?

Na hemorragia externa, o sangue aparece no ferimento, nas roupas ou no chão. Muitas vezes, é possível agir diretamente sobre a região que sangra.

Na hemorragia interna, o sangue permanece dentro do organismo. Uma pessoa pode apresentar perda importante depois de uma queda ou colisão sem ter um corte visível. Pressionar a pele ou aplicar um torniquete não resolve esse tipo de sangramento.

Também pode haver sangramento de origem interna que se manifesta pela boca ou por outras saídas naturais do corpo. Esses sinais precisam de avaliação e não devem ser tratados como um corte comum.

Como reconhecer um sangramento que ameaça a vida

Considere a situação grave quando o sangue sai em grande quantidade, forma uma poça, encharca rapidamente as roupas ou continua fluindo apesar da pressão direta. Jatos de sangue também são um alerta, mas o sangramento não precisa sair em jatos para ser perigoso.

Observe, ao mesmo tempo, como a pessoa está reagindo. Os principais sinais de comprometimento da circulação incluem:

  • Palidez e pele fria ou úmida.
  • Fraqueza intensa, tontura ou sensação de desmaio.
  • Respiração acelerada.
  • Agitação, confusão ou respostas cada vez mais lentas.
  • Sonolência incomum ou perda de consciência.
  • Sede intensa após uma perda de sangue.

Não espere que todos esses sinais apareçam. A própria intensidade do sangramento já pode justificar uma resposta imediata. Da mesma forma, uma pessoa ainda estar falando não significa que a situação esteja controlada.

Em crianças, uma quantidade de sangue aparentemente pequena para um adulto pode representar uma perda relevante. A avaliação precisa considerar o tamanho da criança e seu estado geral, sem aguardar uma estimativa de volume para pedir ajuda.

Preciso identificar se o sangue é arterial ou venoso?

Para iniciar os primeiros cuidados, não. Embora essa classificação tenha utilidade no estudo do atendimento, ela não deve atrasar a ajuda.

Sangramento arterial pode ser pulsátil, e sangramento venoso também pode ser volumoso. Cor, iluminação, roupas e mistura com outros líquidos dificultam a interpretação. Para o leigo, a pergunta prática é: há perda intensa, persistente ou acompanhada de piora da pessoa?

O que fazer em caso de hemorragia grave: passo a passo

1. Verifique a segurança antes de se aproximar

Observe trânsito, máquinas em funcionamento, eletricidade, vidros, objetos cortantes e outras ameaças. Não entre em uma área perigosa para tentar prestar atendimento.

Se houver condições seguras, aproxime-se, explique que vai ajudar e evite contato com o sangue. Use luvas descartáveis, se estiverem ao alcance. Caso não estejam disponíveis, uma barreira impermeável pode reduzir a exposição. A própria vítima, se estiver consciente e conseguir, pode começar a pressionar o ferimento.

Essa preparação precisa ser rápida. Não deixe um sangramento intenso sem controle enquanto procura um material ideal longe do local.

2. Peça ajuda e acione o serviço de emergência

Distribua tarefas de forma direta: peça a uma pessoa que telefone e a outra que traga materiais. Evite apenas gritar “alguém chama ajuda”, porque todos podem imaginar que outra pessoa já está fazendo isso.

Informe ao atendente o endereço, um ponto de referência, o que aconteceu, quantas pessoas estão feridas e se a vítima está consciente e respirando. Diga claramente que existe um sangramento intenso e relate o que já está sendo feito.

Se estiver sozinho e tiver celular, use o viva-voz para receber orientação enquanto mantém a pressão. Não adie a ligação esperando descobrir se a pessoa vai melhorar. Siga as instruções recebidas e avise se houver mudança na respiração ou na consciência.

3. Localize a origem do sangramento

Afaste ou corte a roupa, se isso puder ser feito com segurança, para identificar o ponto que está sangrando. Um tecido encharcado pode esconder a lesão e dificultar a aplicação da pressão no lugar correto.

Exponha apenas o necessário e preserve a privacidade da pessoa. Não explore a ferida com os dedos, não procure vasos e não tente retirar materiais presos em profundidade.

Se houver um objeto encravado, mantenha-o no lugar. Ele pode estar limitando parte da perda de sangue, e sua retirada pode piorar muito a situação.

4. Faça pressão direta, firme e contínua

Coloque uma gaze, compressa ou tecido limpo sobre o ferimento e pressione de maneira firme, direcionando a força para o ponto que sangra. Quando possível, apoie a região sem movimentar desnecessariamente um membro lesionado.

A pressão precisa ser mantida. Encostar um pano suavemente ou apenas cobrir o ferimento não produz o mesmo efeito. Se a vítima puder colaborar, explique o que está fazendo e peça que permaneça parada.

Não levante a compressa repetidamente para verificar o corte. Isso interrompe a pressão e pode prejudicar o controle obtido. Continue até o sangramento parar, outra pessoa assumir o cuidado ou um torniquete indicado ser aplicado com sucesso.

Em uma hemorragia grave, não existe um prazo de espera que torne aceitável continuar perdendo sangue intensamente. Se a pressão não estiver funcionando, avise o serviço de emergência e avance para a medida apropriada ao local da lesão e ao seu treinamento.

Close de mãos com luvas comprimindo uma gaze sobre um ferimento no antebraço apoiado em uma superfície firme.

5. Reavalie se o sangue continuar saindo

Confira se suas mãos estão realmente sobre a origem do sangramento e se a pressão é suficiente. Se o sangue atravessar a primeira compressa, mantenha-a em contato com a ferida. Pode ser colocada outra por cima, mas não forme uma pilha espessa que atrapalhe a pressão.

Se um curativo já fixado voltar a sangrar, retome a pressão manual sobre a região e peça orientação. Trocar continuamente os tecidos ou apenas acrescentar novas camadas pode esconder a continuidade da hemorragia.

6. Mantenha o controle enquanto aguarda a equipe

Depois que o sangramento estiver controlado, um curativo compressivo pode ajudar a manter o resultado, quando aplicado por alguém que saiba fazê-lo. A fixação não dispensa observar se o sangue voltou a sair.

Não movimente a pessoa apenas para melhorar a organização do local. Deixe espaço para a equipe chegar e mantenha os materiais necessários próximos. Se outra pessoa assumir a compressão, faça a troca de maneira coordenada, com a menor interrupção possível.

Quando o torniquete é indicado?

O torniquete de extremidade é um dispositivo destinado a interromper o fluxo de sangue em um braço ou uma perna. Sua indicação é o sangramento que ameaça a vida nesse membro, especialmente quando a pressão direta não controla a hemorragia ou não pode ser mantida.

Ele não deve ser usado em qualquer corte. Também não deve ser colocado no pescoço, tórax ou abdome. Existem equipamentos especializados para outras regiões, mas seu emprego não faz parte das orientações gerais deste artigo.

As diretrizes AHA/Red Cross recomendam o torniquete para hemorragia de extremidade com risco de vida não controlada pela pressão direta e apontam vantagem provável dos dispositivos comerciais sobre improvisados.

Torniquete comercial aplicado no braço, acima do cotovelo e entre o tronco e um ferimento coberto no antebraço.

Cuidados essenciais no uso

Se houver um torniquete apropriado e alguém treinado, aplique-o conforme as instruções do fabricante, no membro lesionado, entre a ferida e o tronco. Não o coloque diretamente sobre a lesão ou sobre uma articulação.

O aperto deve ser suficiente para interromper o sangramento. Um equipamento apenas ajustado de forma frouxa não cumpre sua finalidade. Após a aplicação, confira se o sangue realmente parou de sair.

Anote o horário, mantenha o dispositivo visível e informe à equipe de emergência quando ele foi colocado. Não afrouxe nem retire o torniquete por conta própria, mesmo que a pessoa relate dor. Essa decisão cabe aos profissionais responsáveis pelo atendimento.

O treinamento prático ajuda a reconhecer a indicação, posicionar o dispositivo e corrigir falhas. Um texto não permite verificar a força aplicada nem o ajuste do equipamento em diferentes tamanhos de membros.

Posso improvisar com cinto ou fio?

Fios e cordões estreitos podem machucar e não controlar adequadamente a hemorragia. Um cinto comum também não equivale a um torniquete comercial e pode não produzir a pressão necessária.

Se não houver equipamento e você não tiver treinamento, mantenha pressão direta e siga a orientação do serviço de emergência. Não interrompa uma compressão eficaz para procurar objetos e experimentar improvisações. A existência de técnicas improvisadas em alguns contextos não torna qualquer amarração uma opção segura.

O que é preenchimento de ferida?

O preenchimento de ferida consiste em colocar material apropriado dentro de uma lesão profunda para produzir pressão onde o sangramento está ocorrendo. Depois, mantém-se compressão sobre a área.

Essa técnica pode ser útil em regiões como virilha e axila, nas quais um torniquete comum de braço ou perna não consegue atuar adequadamente. Também pode integrar o controle de certas hemorragias em membros.

É uma técnica que exige treinamento. Reconhecer quais feridas podem ser preenchidas é tão importante quanto aprender o procedimento. Não introduza gazes ou tecidos em ferimentos que se comuniquem com o interior do tórax ou do abdome.

Materiais hemostáticos são produtos desenvolvidos para auxiliar o controle do sangramento. Eles não são equivalentes a pós domésticos e não dispensam pressão nem o cumprimento das instruções de uso.

Sem treinamento, priorize a pressão externa apropriada, o acionamento do socorro e as orientações do atendente. Não transforme uma tentativa de ajuda em exploração de uma ferida profunda.

Situações que exigem cuidados diferentes

Objeto encravado

Não retire facas, fragmentos grandes de vidro ou outros objetos presos no corpo. Faça pressão ao redor da lesão, sem empurrar o objeto para dentro. Se souber estabilizá-lo com compressas ao redor, evite que ele se movimente até a chegada da equipe.

Não tente cortar ou encurtar o objeto por iniciativa própria. Movimentá-lo pode ampliar a lesão. Informe sua presença ao atendente para que a equipe se prepare.

Ferimento no tórax ou abdome

Feridas profundas nessas regiões podem envolver órgãos e sangramento interno. Não as preencha com tecido, não empurre órgãos expostos para dentro e não aplique torniquete.

Se houver uma abertura no tórax, principalmente com dificuldade para respirar, não improvise um fechamento hermético com plástico. Acione o socorro e siga a orientação para essa lesão específica. As diretrizes AHA/Red Cross tratam ferimentos torácicos abertos separadamente, porque uma cobertura inadequada pode prejudicar a respiração.

Amputação traumática

Quando uma parte do corpo é amputada, a primeira preocupação é a pessoa e o controle da hemorragia. Um torniquete pode ser necessário em um membro com sangramento que ameaça a vida.

Não interrompa o atendimento para procurar a parte amputada. Se houver outra pessoa disponível, ela pode receber orientações do serviço de emergência sobre como recolher e acondicionar o segmento. A preservação desse material não deve atrasar o socorro.

Como suspeitar de hemorragia interna

Depois de colisões, quedas importantes ou impactos no tronco, observe dor abdominal, aumento de volume, manchas extensas e sinais de choque. Vômito, tosse ou urina com sangue também exigem atenção imediata.

Não é necessário encontrar todos esses sinais para suspeitar de uma lesão grave. O contexto do acidente e a piora progressiva já justificam pedir ajuda. Uma pessoa pode parecer bem inicialmente e apresentar alterações depois.

Na suspeita de hemorragia interna, acione o serviço de emergência, evite movimentações desnecessárias e acompanhe a respiração e a consciência. Não pressione o abdome para “testar” a lesão e não ofereça comida ou bebida.

Como cuidar da pessoa enquanto o socorro não chega

Mantenha a vítima em repouso. Se houver sinais de choque e isso for tolerado, ela pode permanecer deitada de costas. Contudo, não force essa posição se piorar a respiração e não movimente alguém com suspeita de lesão na coluna apenas para deitá-lo.

Proteja contra o frio com uma manta ou roupa, sem esconder um torniquete aplicado. Converse de forma calma, explique que a ajuda está a caminho e observe se as respostas ficam mais lentas.

Não ofereça água, alimentos ou medicamentos por iniciativa própria. Mesmo com sede, a pessoa pode vomitar ou ter dificuldade para proteger a própria respiração. 

Se a pessoa deixar de responder, avise imediatamente o atendente. Se não respirar normalmente, inclusive se apresentar apenas suspiros irregulares, será necessário iniciar as medidas orientadas para uma possível parada cardiorrespiratória. Havendo mais de um ajudante, um pode manter o controle da hemorragia enquanto outro realiza a reanimação. Se estiver sozinho, siga a orientação do serviço para organizar essas prioridades.

Erros que podem piorar uma hemorragia

  • Esperar o sangue parar sozinho: uma perda intensa precisa de intervenção imediata.
  • Lavar demoradamente uma ferida que está sangrando muito: isso atrasa o controle da hemorragia.
  • Retirar repetidamente a compressa: a pressão perde continuidade.
  • Colocar café, açúcar ou outros produtos caseiros: eles não substituem o controle mecânico e contaminam a ferida.
  • Retirar objetos encravados: a perda de sangue pode aumentar.
  • Usar torniquete em qualquer corte: sua indicação é específica para hemorragia de membro com risco de vida.
  • Afrouxar um torniquete periodicamente: o sangramento pode recomeçar.
  • Deixar a vítima sozinha após uma melhora: a hemorragia pode voltar e o estado geral pode piorar.

Perguntas frequentes

Por quanto tempo devo pressionar?

Mantenha pressão contínua até controlar o sangramento, ser substituído ou haver outra medida eficaz. Se o sangue continuar saindo intensamente, não espere um número fixo de minutos para buscar ajuda adicional e uma intervenção apropriada.

Posso usar uma camiseta limpa?

Sim, para fazer pressão sobre uma ferida externa quando não houver gaze ou compressa disponível. Não é necessário esperar por material estéril para começar a conter uma perda intensa. Use uma parte limpa do tecido e mantenha a pressão concentrada na lesão.

Se o sangue parou, ainda precisa de atendimento?

Sim, quando houve hemorragia importante, ferimento profundo, objeto encravado, amputação ou sinais de choque. Parar o sangramento visível não exclui lesões internas nem substitui a avaliação da ferida. Um torniquete aplicado também exige atendimento imediato.

Levantar o braço ou a perna resolve?

Não substitui a pressão direta e não deve atrasar as medidas de controle. Evite movimentar um membro que possa estar fraturado apenas para elevá-lo. Concentre-se na lesão, no estado da pessoa e na orientação do serviço de emergência.

O que informar quando a equipe chegar?

Conte o que aconteceu, onde estava o sangramento, quais cuidados foram realizados e se houve desmaio ou mudança na respiração. Se aplicaram torniquete, informe o horário. Relate também medicamentos e doenças conhecidos, sem interromper o atendimento para procurar essas informações.

Conclusão

Reconhecer uma hemorragia grave e agir rapidamente pode salvar uma vida. Garantir a segurança do local, acionar o socorro e manter pressão direta sobre um ferimento externo são medidas essenciais para reduzir a perda de sangue enquanto a equipe de emergência chega. O torniquete tem indicação específica para sangramentos que ameaçam a vida em braços ou pernas, e seu uso exige conhecimento da técnica. Mesmo quando o sangramento parece controlado, a pessoa precisa de avaliação após uma perda importante de sangue. Aprender esses cuidados e participar de treinamentos práticos ajuda a transformar conhecimento em uma resposta mais segura quando alguém precisa de ajuda.

Referências

  1. HEWETT BRUMBERG, E. K. et al. 2024 American Heart Association and American Red Cross Guidelines for First Aid. Circulation, v. 150, n. 24, p. e519–e579, 2024. DOI: 10.1161/CIR.0000000000001281. 
  2. AMERICAN RED CROSS. Bleeding: Life-Threatening External
  3. AMERICAN RED CROSS. Bleeding: Life-Threatening Internal
  4. AMERICAN RED CROSS. Shock.

 

Importante: Este conteúdo possui finalidade educativa e não substitui avaliação ou atendimento profissional. Em uma emergência, acione o serviço de emergência adequado e siga as orientações fornecidas pelo atendente.

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